Modelagem Econométrica de Desaprovação Governamental


[!NOTE] Estudo Sanitizado (proprietary_sanitized): Modelagem estatística econométrica desenvolvida para gestão pública municipal no interior do Estado do Rio de Janeiro. Para resguardar o sigilo institucional sob NDA, a denominação do município e de agentes públicos foi integralmente descaracterizada para o arquétipo setorial “Gestão Municipal do Interior Fluminense”, com preservação estrita dos parâmetros econométricos, testes de ajuste e coeficientes estimados.


1. O Problema da Avaliação Política e Teoria da Escolha Pública

A avaliação de um governo não é um contínuo homogêneo nem decorre de uma média aritmética de notas atribuídas a secretarias isoladas. Sob a ótica da Teoria da Escolha Pública e dos incentivos eleitorais, o cidadão pondera a aprovação ou desaprovação governamental a partir de assimetrias cognitivas severas: perdas em serviços essenciais de proteção imediata pesam muito mais do que ganhos pontuais em infraestrutura estética.

Em municípios do interior, onde a proximidade física entre a população e o poder público é estreita, a desaprovação executiva é um sinal de ruptura contratual. Quando o cidadão declara desaprovar a administração municipal, tal posicionamento não reflete mero desacordo ideológico; reflete um acúmulo de fricções operacionais cotidianas.

A investigação aqui descrita objetivou responder a uma questão pragmática: quais variáveis operacionais e sociodemográficas exercem maior tração marginal sobre a probabilidade de um munícipe desaprovar a gestão local?


2. Desenho Amostral e Especificação Econométrica

A base empírica estruturou-se sobre pesquisa amostral domiciliar representativa da população urbana e rural do município, balanceada por cotas censitárias de gênero, faixa etária e distribuição geográfica.

Para modelar o fenômeno binário de desaprovação ($Y = 1$ para desaprovação da gestão executiva; $Y = 0$ para aprovação ou regular neutro), especificou-se uma Regressão Logística Multivariada (Logit):

\[\ln\left(\frac{P(Y=1)}{1 - P(Y=1)}\right) = \beta_0 + \sum_{k=1}^K \beta_k X_k\]

Em que:

  • $P(Y=1)$ representa a probabilidade estimada de desaprovação;
  • A razão $\frac{P(Y=1)}{1 - P(Y=1)}$ representa as chances relativas (odds) do evento;
  • $\exp(\beta_k)$ denota a Razão de Chances (Odds Ratio - OR) associada à covariável $X_k$ após controle pelos demais fatores.

2.1. Desempenho e Validação Estatística do Modelo

O modelo treinado apresentou estabilidade estatística consistente em partição cega de teste:

  • Acurácia em Partição de Teste: 86,49%
  • Acurácia em Partição de Treino: 91,13%
  • Área sob a Curva ROC (AUC-ROC): 0,789

Tal patamar de AUC-ROC (próximo a 0,80) demonstra capacidade discriminativa sólida entre eleitores propensos a desaprovar e eleitores alinhados à gestão, acima de classificadores ingênuos baseados em intenção espontânea de voto.


3. Matriz de Fatores de Influência e Odds Ratios

A Tabela 1 reúne todos os fatores estimados pelo modelo logístico, dispostos em ordem decrescente do impacto marginal absoluto sobre a desaprovação governamental:

Fator / Covariável Coeficiente ($\beta$) Odds Ratio (OR) Variação Estimada (%) Vetor de Influência
Faixa Etária: 60 anos ou mais (idade_60_mais) -0,9175 0,40 -60,0% Diminui Desaprovação
Avaliação Crítica de Segurança (avaliacao_seguranca_cod) +0,7891 2,20 +120,1% Aumenta Desaprovação
Percepção de Progresso Municipal (percepcao_progresso_municipal) -0,5692 0,57 -43,4% Diminui Desaprovação
Avaliação Crítica de Estradas / Vias (avaliacao_estradas_cod) +0,5447 1,72 +72,4% Aumenta Desaprovação
Faixa Etária: 45 a 59 anos (idade_45_59) -0,4234 0,65 -34,5% Diminui Desaprovação
Aprovação de Eventos / Iluminação Festiva (avaliacao_eventos_festivos) -0,4107 0,66 -33,7% Diminui Desaprovação
Avaliação Crítica de Saúde (avaliacao_saude_cod) +0,4061 1,50 +50,1% Aumenta Desaprovação
Segmento Religioso: Outras Religiões (religiao_outras) +0,3529 1,42 +42,3% Aumenta Desaprovação
Avaliação Crítica de Educação (avaliacao_educacao_cod) +0,3002 1,35 +35,0% Aumenta Desaprovação
Gênero: Feminino (genero_feminino) +0,2836 1,33 +32,8% Aumenta Desaprovação
Segmento Religioso: Evangélico (religiao_evangelico) +0,2482 1,28 +28,2% Aumenta Desaprovação
Avaliação Crítica de Agricultura (avaliacao_agricultura_cod) +0,1689 1,18 +18,4% Aumenta Desaprovação
Avaliação Crítica de Transporte Público (avaliacao_transporte_cod) +0,0892 1,09 +9,3% Aumenta Desaprovação
Faixa Etária: 29 a 44 anos (idade_29_44) +0,0350 1,04 +3,6% Aumenta Desaprovação
Avaliação Crítica de Limpeza Pública (avaliacao_limpeza_cod) -0,0220 0,98 -2,2% Efeito Nulo / Residual

Tabela 1: Parâmetros estimados da regressão logística multivariada de desaprovação governamental.


4. Decomposição das Evidências Empíricas

A interpretação econométrica dos parâmetros evidencia quatro dinâmicas estruturantes na psicologia política municipal:

4.1. Segurança Pública como Gatilho Crítico de Ruptura (OR = 2,20)

A avaliação negativa da segurança pública desponta como o principal catalisador de rejeição. Eleitores que classificam a segurança municipal como ruim ou péssima possuem 120,1% a mais de chances (OR = 2,20) de desaprovar o governo como um todo.

A segurança opera como um bem de integridade física. Quando o sentimento de vulnerabilidade se instala no interior, o cidadão atribui a deterioração da ordem diretamente à inação da gestão executiva e anula eventuais entregas em outras áreas.

4.2. A Fricção das Estradas e Vias Vicinais (OR = 1,72)

A malha viária assume peso desproporcional (+72,4% de chances de desaprovação). Em cidades de relevo acidentado e distritos rurais dispersos, o estado das estradas determina o escoamento agrícola, o transporte escolar e o acesso à saúde. Buracos e pontes precárias não são percebidos como mero desconforto estético; representam perda econômica direta para os moradores.

4.3. O Fator Higiênico da Saúde Pública (OR = 1,50)

A insatisfação com a saúde municipal eleva as chances de desaprovação em 50,1%. Como bem público universal de uso recorrente, a saúde funciona na teoria dos dois fatores de Herzberg: quando funciona, é tratada como obrigação contratual da prefeitura; quando falha (falta de remédio ou fila no agendamento), converte-se instantaneamente em desaprovação ativa.

4.4. A Blindagem Geracional da Terceira Idade (OR = 0,40)

O perfil etário revela uma clivagem demográfica nítida. Ter 60 anos ou mais reduz as chances de desaprovação governamental em 60,0% (OR = 0,40) em relação à categoria de referência (jovens). Esse estrato é mais apegado a rotinas comunitárias, valoriza a estabilidade política e exibe maior tolerância a lentidões administrativas, ao passo que as faixas intermediárias e jovens impõem maior volatilidade eleitoral.

4.5. Percepção de Progresso como Amortecedor Sistêmico (OR = 0,57)

A crença de que a cidade está em trajetória positiva reduz a probabilidade de rejeição em 43,4%. Tal métrica reflete o papel da expectativa futura: munícipes que enxergam obras e melhorias tangíveis na cidade tendem a relevar falhas pontuais de custeio corrente.


5. Visualizações e Curvas de Ajuste

A visualização dos coeficientes e da matriz de classificação comprova o poder discriminativo do algoritmo:

Coeficientes e Odds Ratios

Resultados da Regressão Logística Figura 1: Distribuição dos coeficientes estimados e magnitude dos impactos marginais.

Matriz de Confusão em Partição de Teste

Matriz de Confusão do Modelo Figura 2: Matriz de confusão com taxa de acerto balanceada entre aprovação e desaprovação.


6. Implicações Estratégicas para a Tomada de Decisão Pública

A decomposição matemática da desaprovação demonstra que governos municipais não devem orientar seus investimentos exclusivamente por pesquisas descritivas de intenção de voto.

O modelo prova que a mitigação da rejeição passa por uma hierarquia precisa de ações:

  1. Estancar Focos de Insegurança Local: Ações integradas de patrulhamento comunitário, iluminação LED em pontos escuros e videomonitoramento geram impacto estatístico superior a qualquer campanha publicitária institucional.
  2. Priorização Rígida de Vias Vicinais e Estradas: Manutenção continuada de acessos interdistritais neutraliza a segunda maior fonte de reprovação da máquina pública.
  3. Foco no Abastecimento e Agilidade da Saúde: Redução do tempo de fila e garantia de medicamentos básicos estancam a sangria diária da percepção popular.



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