Criptomoedas: Mas Seria o Bitcoin Efetivamente uma Moeda?
[!NOTE] Ensaio Histórico / Registro Original: Artigo originalmente publicado por Pablo Diego Pereira no LinkedIn Pulse em 14 de maio de 2017. Preservado integralmente como crônica e registro documental de introdução à teoria monetária aplicada aos criptoativos.
Uma análise pessoal do ativo mais falado do momento
Essa pergunta pode ter mais de uma resposta, mas a mais sincera é que não. Simples, bitcoin ainda não é uma moeda, mas pode ser que um dia venha a ser. Para ser uma moeda o bitcoin obrigatoriamente tem que assumir algo além de algum valor, afinal de contas um pé de feijão tem valor, nem por isso ele é moeda. Então, vou tentar usar a linguagem mais simples possível, para explicar alguns conceitos e minha visão:
Funções
A moeda, aquele bom e velho pedaço de papel que guardávamos na carteira (afinal tudo — ou quase tudo — hoje resolvemos no débito ou crédito), para ser reconhecida precisa assumir algumas funções básicas:
-
Reserva de valor — quando algo, se for guardado/entesourado, pode ser utilizado para compra de bens e serviços em uma data futura.
Ex: Hoje, se você guardar R$ 100,00 em uma gaveta, poderá usar pra fazer compra no próximo mês. -
Meio de troca — determinado item possa ser usado para compra de bens e serviços, tendo aceitação geral.
Ex: Hoje, com notas de dinheiro, você basicamente pode fazer compras em qualquer local do país — exceção para casos que aceitam apenas débito, crédito, transferência, etc. -
Unidade de conta — permite que você use aquele item com forma de contabilizar valor de algum produto, dívida, serviço, etc.
Ex: Lojas cobram certa quantidade de reais como forma de pagamento, mas não cobrariam normalmente uma quantidade de bananas, mesmo que tivessem o mesmo valor.
Feita essa distinção, momento Jack Estripador: Vamos por partes.
Bitcoin pode ser uma reserva de valor?
Bitcoin é um ativo que desde 2009 roda pelas redes, e de lá pra cá o preço dele, que valia frações de centavos, está cotado em torno de 1800 dólares a unidade. O valor percebido dele claramente está seguindo uma alta muito forte faz algum tempo.
Evolução histórica da cotação do Bitcoin (USD, 2011–2017). Fonte: Coindesk / Arquivo do autor.
Uma característica cria dúvidas e credibilidade nela ao mesmo tempo: Espontaneidade.
De um lado da corda: o fato de que sua alta se dá de forma muito intensa e sem nenhum ente centralizador deixa em aberto o questionamento sobre o real valor ou se há uma forte bolha sobre o sistema.
Do outro lado: a mesma espontaneidade, que claramente conduz a rede desde sua criação, é uma das maiores garantidoras de segurança do sistema — é praticamente impossível falsificar uma unidade que seja da moeda, e mesmo em teoria seja possível, a falsificação custaria centenas de milhões de dólares e seria rastreável pelo restante do sistema, sendo possivelmente rejeitável: É mais fácil e muito mais barato falsificar um diamante que um bitcoin.
Então a seriedade da rede se consagra, ao meu ver, com sua descentralização (é como chamam o fato de não existir um dono do sistema) e a demanda que ela cria por conta disso, configurando, ao meu ver, essa função.
Mas não se empolgue: até uma coleção de selos pode ser uma reserva de valor e deixar de ter de uma hora pra outra.
Bitcoin é um meio de troca?
Essa função deixa em aberto dúvidas, mas sendo bem simplista, no geral podemos considerar sim como meio de troca.
O Bitcoin pode não ser diretamente aceito por todos os membros de uma economia ainda, mas já existe um grande número de grandes empresas que aceitam, desde Airbnb até empresas com Dell e Microsoft, já dando bastante credibilidade pra esse ativo.
Além disso existem ferramentas de fácil acesso para converter bitcoin em moeda local, com velocidades relevantes: inclusive cartões de débito que consomem um saldo em bitcoin que você tenha guardado, como se fosse a conta corrente de um banco. Claro que o que estaria sendo aceito nesse processo é a moeda local, mas a dinâmica de conversão é tão prática que não faz diferença.
Essa, ao meu ver, é a característica que caso seja bem trabalhada pode trazer sim ao bitcoin futuramente a última característica faltante.
Bitcoin é uma unidade de conta?
Essa é bem fácil: Não. Mas você talvez pense: “Mas como assim? Ela tem unidade, dá pra utilizar pra contar”. É, mas a volatilidade dela é tão grande que você simplesmente não tem como dar preços e salários com ela hoje, e sinceramente não vejo isso ocorrendo em um horizonte curto de tempo.
Por exemplo, se eu tivesse assinado um contrato uma pessoa para trabalhar para mim 1 ano atrás, e tivesse me proposto a pagar um bitcoin por mês, que seria algo em torno de 1700 Reais, e de lá pra cá eu mantivesse o valor em um Bitcoin, hoje eu estaria pagando em torno de 6600 Reais por mês a ela, um aumento de quase 300%. Já imaginou um mercado tendo que mudar preços de todos os ativos instantaneamente a cada variação desse ativo, que chega a variar mais de 10% em minutos?
Basicamente, hoje, é inviável o uso de Bitcoin como unidade de conta. Seria impossível calcular contratos, salários, preços ou qualquer outra coisa em uma moeda que tem seu valor oscilando muito diariamente.
Características
A moeda também tem características desejadas, além de suas funções, que fazem parte da sua construção.
Indestrutibilidade, Inalterabilidade e Homogeneidade
A moeda deve ser feita de material resistente o suficiente para que não seja destruída muito rapidamente e nem seja facilmente falsificável, além disso que seja feita com materiais e moldes iguais, se diferenciando apenas na quantidade de valor expresso.
A inalterabilidade é a marca chave do Bitcoin, já que a rede por trás dele impede sua falsificação (que até hoje só é possível em teoria, com chances quase zero de ocorrer).
Homogeneidade e Indestrutibilidade, da maneira que foi descrito, basicamente é algo entrelaçado com todos os conceitos que cercam as moedas digitais, já que são compostas basicamente por dados e não sofrem dano nenhum mediante ao uso.
Divisibilidade, Transferibilidade e Facilidade de manuseio e transporte
A moeda deve ter como ser multiplicável de forma que transações de valores maiores e menores sejam possíveis sem complicações. As transações utilizando essa moeda devem ser facilmente realizáveis entre os indivíduos de uma economia.
Bitcoin é um ativo que tem, nas suas regras, um limite máximo de unidades a ser emitidas. Literalmente apenas um máximo de 21 milhões de unidades serão emitidas em Bitcoin, e cada unidade é divisível em até 8 casas decimais — diferente do real, que dividimos normalmente em 2 casas decimais no máximo —, somando hoje aproximadamente 16.320.000,00000000 unidades já emitidas, sendo que esse número de casas decimais é perfeitamente alterável, se necessário.
A forma com que é configurada sua disposição de unidades já deixa ela ainda mais divisível que moedas comuns.
O fato de ser digital faz com que sua transferência se dê por meio eletrônico, de maneira muito fácil e dinâmica, sendo assim possível fazer transações gigantescas através do mundo com a mesma facilidade e custos que seriam transações locais.
Seu manuseio, hoje, necessita que haja algum tipo de conexão com a rede, da mesma maneira que as máquinas de cartão de crédito que shoppings e lojas utilizam. Isso pode ser um complicador, mas não em áreas urbanas no geral.
Conclusão
Hoje o Bitcoin definitivamente não é uma moeda, apesar de ter sido projetado para ser, mas quem sabe num futuro? Acredito que ainda estamos longe disso, mas sem dúvida é um ativo muito interessante e extremamente único em suas características.
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